Queria contar a história sobre aquilo que nomeei como CULPA.
Queria contar a história sobre aquilo que nomeei como CULPA.
Queria contar a história sobre aquilo que nomeei como CULPA. Às vezes, essa culpa aparece vestida de vergonha, de raiva, de inveja, de tristeza; às vezes vem nua como culpa mesmo. O nome não importa tanto; o que importa aqui é o quanto isso me ensinou sobre mim mesma.
Eu convivi com a culpa por muitos anos sem saber que ela estava lá; ela era tão presente o tempo todo, tão imensa, ocupava tanto espaço do meu ser que eu me anestesiei com sua presença... naturalizei... como uma pessoa míope que nunca colocou óculos na vida e acredita que o mundo é realmente embaçado. Apesar desse anestesiamento, ela se fazia muito presente na minha vida: eu sentia um profundo ódio de mim mesma, um desamor profundo. Era assim que ela conversava comigo naquele momento. Eu sentia culpa por ser quem eu era, culpa por existir. E, ao mesmo tempo, sentia, na mesma medida, uma profunda solidão. Eu até buscava esse afeto de outras pessoas, na família, nos amigos; mas quando a gente pede amor sem se amar de antemão, no final das contas, tudo vira culpa. A culpa às vezes também se mostra como insuficiência, aquele sentimento terrível de ver que todas as pessoas são melhores que você; mais inteligentes que você; mais bonitas que você, enquanto você é nada. Eu lembro de ouvir muito claramente essas palavras na minha cabeça: você é nada.
Esse enlace entre eu e a culpa foi tão forte que cheguei ao ponto de realmente me agredir o tempo todo, inclusive fisicamente. Nos poucos momentos em que eu conseguia sentir paz, me sentir amada e protegida, eu me culpava logo em seguida... pensava: “Como posso eu estar recebendo bênçãos se eu não fiz nada pra merecer? Como posso eu ser feliz se as outras pessoas estão sofrendo, sem comida, sem casa?” E então eu me punia; eu buscava incansavelmente o sofrimento, porque assim a culpa aliviava um pouco. A lógica não faz sentido; é claro que existem outras pessoas que sofrem. Como eu podia acreditar que o meu sofrimento iria colaborar com o não-sofrimento deles? Enfim, coisas que a culpa faz com a nossa cabeça, acreditar em não-verdades.
Quando comecei minha jornada mais aprofundada no autoconhecimento, alguns anos atrás, na terapia, comecei a cavar essa culpa. E uma das novas faces da culpa que se apresentou pra mim foi a raiva. Ou melhor, a fúria. Eu odiava os homens. Eu odiava as mulheres também, porque algumas delas endeusavam os homens. Eu era movida por ódio... lembro de ficar dias e dias remoendo esse ódio pelas situações desconfortáveis que vivemos diariamente simplesmente por sermos mulheres. Remoendo e remoendo o ódio até pelo meu pai, meu irmão, simplesmente por serem homens.
Nesse momento, minha autoestima estava milhões negativa. Eu queria parecer doente, parecer cansada, esconder meu corpo, porque assim acreditava estar protegida. Esse ódio me levou para um lugar permanente de defensiva. Eu parecia aquelas gatas ariscas de rua, xiando e mostrando os dentes pra todos; mas, quando estava só, a dor era de me sentir sozinha, de sentir que as pessoas não me enxergavam, não me ouviam. Curiosamente, eu mesma estava me pondo atrás de uma muralha feita de culpa e ódio.
A culpa também me fez me cobrar mais do que o Serasa. Apesar de todo desamor, as coisas boas iam acontecendo na minha vida, no meu trabalho (as ruins também, mas essas eu aceitava de bom grado), e, como eu acreditava não merecer as coisas boas, eu tentava correr contra o tempo para então ser merecedora. Eu estava sempre na falta; tudo que eu fazia, eu achava que podia ter feito mil vezes mais; tudo que eu entregava, eu achava que podia ter feito mil vezes mais; eu nem me permitia sentir cansaço. Eu estava sempre acelerada, correndo, e a vozinha na cabeça me dizia: “Desse jeito, você vai continuar sendo nada.”
A vergonha foi uma camada que descobri recentemente da culpa. A vergonha é um sótão escuro onde eu fico quando a culpa vem. Talvez, inclusive, nesse momento que eu estou lendo esse texto, eu esteja me tremendo de vergonha por ler minhas palavras em voz alta; assim como essa vergonha me faz ficar em silêncio quando eu gostaria de cantar alto; me faz me calar toda vez que eu tenho uma contribuição inteligente pra aula; me faz rasgar meus textos antes de qualquer pessoa ler; me faz ficar quieta num canto quando eu gostaria de fazer parte, de falar sobre mim e conhecer pessoas que também falem sobre si. Essa vergonha me faz ter medo de me arrumar demais ou chamar atenção demais; essa vergonha me faz não querer ser brilhante, não ser boa naquilo que eu faço. Quando a vergonha aparece, a voz que eu escuto é a voz do julgamento. E não o julgamento dos outros sobre mim, mas do meu próprio julgamento sobre mim e sobre os outros. Eu me julgo quando chamo a atenção porque julgo mulheres que chamam atenção. Não adianta; a gente só ama no outro aquilo que a gente ama na gente mesmo e a gente só julga no outro aquilo que a gente julga na gente mesmo. E se a gente não se ama, o que resta é só o julgamento.
Eu gostaria de agradecer a oportunidade de ler algo que escrevi em voz alta e vencer minha vergonha/culpa hoje. Eu devo essa pra mim. Eu achava que, quando atingisse um lugar de cura, esses sentimentos todos — culpa, vergonha, raiva, inveja — iam desaparecer magicamente. Ai, como eu esperava isso... Hoje entendo que não; todos eles continuam aqui. Inclusive a culpa... Tem dias que eu até sofro por isso, mas não da mesma forma que no passado. Eu acredito que a chave de tudo é a consciência... eu estou consciente das vozes da culpa, essa voz que me diz inverdades. São minhas próprias armadilhas, mas não apenas armadilhas. Essa voz hoje também pode ser meu superpoder de me conectar com outras mulheres que também escutam essa mesma voz. Eu reconheço essa voz em mim e nas outras. Ela é meu canal de conexão também, muito poderoso, inclusive. Afinal, como eu poderia reconhecer a culpa das minhas irmãs se eu mesma não tivesse trilhado esse caminho?
Outro motivo pelo qual eu queria muito ler esse texto é no sentido de agradecimento. Eu queria dedicar essas palavras para uma outra voz. Uma outra voz que sempre esteve presente, desde o início, quando eu ainda nem conhecia a palavra culpa, nem conhecia as palavras em si, e nem sabia discernir quando alguém estava me fazendo mal ou bem. Essa outra voz esteve comigo quando eu ainda nem conhecia a culpa, muito antes dela se instalar e fazer morada. Se eu estou aqui escrevendo, é por causa dessa voz. Pra cada grito da culpa, existia um sussurro baixo, difícil de ser ouvido, bem no fundo da minha mente, um sussurro que me dizia que tinha algo de errado com todo esse desamor. Um sussurro tão baixo que eu não conseguia nem identificar as palavras, mas era uma faísca, uma faísca minúscula que me fazia, de alguma forma, querer sair daquele lugar apertado, escuro, cheio de vergonha, de auto-punição e de desamor. Era uma vozinha que me dizia: “Essa não é você, essa não é a sua voz.” E essa vozinha tem me conduzido por essa jornada à frente. Desde que pisei aqui no terreiro, essa voz é cada vez mais clara, doce e contundente. Às vezes, ela gargalha, inclusive. Essa voz não é apenas da minha guardiã, mas de todas as minhas ancestrais que não puderam usar suas próprias palavras pra falar sobre si. Que talvez não puderam ter a chance de caminhar e precisaram se manter unidas com a culpa como uma forma de sobrevivência.
Esse texto é pra todas elas; vocês são a minha voz.

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