Divã invisível ( Parte 2) – Crônicas de uma psicoterapeuta.

 Capítulo 1 - O divã

 

No começo da minha jornada profissional eu costumava escutar cerca de 5 a 8 pessoas por dia. No dia de hoje, atendo em média 10 clientes na semana.

Desses 10 clientes, 5 estão comigo há mais de 3 anos. Escutando semanalmente, salvo os dias de faltas e feriados. Atendo pela abordagem fenomenológica existencial e talvez isso faça diferença, talvez não. Só consigo enxergar o mundo através da analítica heideggeriana da existência. Isso ora me é libertador, ora me aprisiona, mas, de fato, é a forma que eu tenho de enxergar o mundo e é dessa forma também que irei compartilhar minhas histórias com vocês.

Não faço ideias quantas pessoas já passaram pelo “meu divã”; divã entre aspas, porque atendo na modalidade online. E mesmo quando atendia presencialmente, não era num divã que meus clientes se sentavam, mas sim, num sofazinho retrátil cinza, coberto por uma manta de crochê, numa sala de aproximadamente 2metros quadrados. A clínica que trabalhava tinha uma vibe muito gostosa, parecia uma casa. A proprietária, Cris e seu marido, eram muito gentis com todos e sempre serviam chá de maçã com canela pra mim e pros meus clientes. As salas de atendimento, apesar de pequenininhas, eram decoradas com cristais, incensos, e davam para um jardim lateral todo zen, com uma pintura de mandala na parede e ervas aromáticas. Eu me sentia muito vontade para andar pelos corredores e jogar conversa fora com os outros psis que la trabalhavam, e as vezes tirar um cochilo no tal sofazinho cinza quando algum cliente faltava. Acho que é por isso que esse sofazinho, mesmo tendo cara de sofá sem graça de recepção de dentista, possa ser elevado ao status de “divã”. Porque, mesmo que singelo e feinho, a gente se sente a vontade pra cochilar, se esparramar. Se sente em casa. E é em casa que a gente consegue deixar ser, simplesmente. “Em casa” é um momento de tempo em que a intimidade se faz presente.

Mas se a gente não ta presente, fica mais difícil abrir espaço pra intimidade nos alcançar.

 

Momo e Nana moram comigo. A moira é uma gata tricolor, branca e com manchinhas pretas e marrom; ela chegou primeiro, invadiu minha casa e nunca mais foi embora. A Morgana é toda preta de olhos amarelos, adotei ela resgatada da rua depois de parir uma ninhada de gestação precoce. Eu lembro do dia que a Nana chegou, na caixinha de transporte, ainda grogue da anestesia de castração. Eu e a Moira estávamos meio tristinhas, nossa outra companheira de casa, a Circe, uma vira lata caramelo com cara de Boxer, morreu de cinomose no meu colo um mês antes. Eu e a Moira ficamos completamente perdidas, desoladas. Eu lembro de sentir uma profunda dor em ouvir o silêncio do andar das patinhas da Circe pelo corredor de madeira que não fazia mais barulho. Era como se a ausência dela preenchesse a casa inteira. Eu andava pela casa e não ouvia aquele andar de patas atras de mim, não ouvia mais o barulho das coisas caindo quando ela passava toda desengonçada batendo o rabo nos objetos, na porta. Lembro de fechar os olhos e imaginar ela ali, como sempre esteve, deitada na porta do banheiro me olhando com a cara do mais puro amor que pode existir. E essa imagem me era tão real, tão cheia de detalhes, do cheiro, a textura do focinho, o latido protetor, que era inacreditável abrir os olhos e ver, bom, ver tudo exatamente no mesmo lugar, só que sem ela.

Aquela ausência, aquele espaço vazio que ficou no colchão da sala enquanto eu assistia TV, me eram completamente estranhos. Terrivelmente estranhos. Eu realmente acreditei, por muito tempo, que sempre seríamos eu e ela, logo atrás, com seu andar desengonçado. Esse vazio me ensinava sobre esses momento difíceis da vida em que, aquilo que costumava ser casa, já não é mais.

 

Quando a Morgana chegou, eu já estava mais intima da ausência da Circe. As crises de choro vinham em ondas mais espaçadas e comecei a me sentir melhor em não ter que limpar o quintal, perdão a palavra, todo cagado. A ausência ainda doía muito, mas aquela dor começou a ser familiar. Eu não sabia muito como cuidar de um gato. A Moira veio e foi ficando, ela mesma foi me ensinando sobre ela, de uma forma natural. Quando eu peguei a Morgana no colo, aquele serzinho amoroso, sonolenta, tão magra de desnutrida, não fazia idéia do que eu ia fazer, de como eu ia cuidar dela. Não fazia idéia de como eu ia apresenta-la pra Moira, visto que a recepção não foi nada amigável.

Se eu estou deitada na cama, antes de dormir, e eu sinto uma pisada mansa, lenta, silenciosa, sei que a Moira esta se acomodando entre as minhas pernas pra dormir comigo. A Morgana escala o cobertor até subir, resmungando alto. Isso quando ela dorme na cama, porque costuma fazer peripécias pela casa a noite toda.

Com o tempo, fui conhecendo tanto minhas gatas a ponto de identificar quem é quem pelo andar. E elas também, sabem quando eu estou doente, triste, empolgada. A gente se conhece muito bem, e continuamos nesse aprendizado constante, até que, um dia, ou eu vou me familiarizar com a ausência delas ou, elas vão precisar se familiarizar com a minha ausência. 


Já havia ouvido alguém dizer que a verdade liberta, mas não que essa verdade era foda pra caralho de encarar. Afinal, esse é o movimento imparável da vida: criar intimidade e perder intimidade, familiarizar para, depois, vir o estranhamento. Começar e acabar e depois começar de novo. “ A vida é o princípio da morte”.

Penso que aquele sofázinho cinza, da sala da clínica em que atendia, foi um lugar familiar para muitas pessoas. Ali ouvi sobre medos, mágoas,descobertas, dores, perdas, sonhos, conquistas, aventuras... penso que, alguma pessoa, talvez, num momento de desespero, se sentindo perdido, se transportou mentalmente para aquele sofá, numa tentativa de encontrar essa casa, esse lar.  Assim como eu, quando me senti completamente impotente diante daquele sentimento de perda da minha companheira canina, me vi no sofá da minha psicóloga, imaginando ela dizendo palavras que acolhessem minha dor.

Uma vez minha psicóloga me disse uma frase que me deixou puta da vida, logo no inicio do processo psicoterapêutico, a mais ou menos seis anos atrás. Ela me disse que eu nunca ia deixar de ser uma pessoa ansiosa, que isso era algo meu, era quem eu era. Mas que ela poderia me ajudar a ter intimidade com minha ansiedade. Tanta intimidade que escutaria ela chegando em passos lentos.

Hoje eu consigo entender isso. Ter intimidade. Parece óbvio, mas o óbvio as vezes precisa ser dito e repetido infinitas vezes. Quantas vezes vivemos momentos em que tudo desmorona, em que nós se tornamos completamente estranhos para nós mesmos. E buscamos, implacavelmente, esse lar em outras pessoas, outros lugares...e esquecemos do mais simples, de buscar isso na gente mesmo né. Buscar intimidade com esse permanente lugar de telespectador da impermanência. Impotente, entregue e livre: aceitar-se finito. Aceitar e se ver morrendo várias vezes durante a vida. Mudar de casa, mudança, caos, bagunça, tudo dentro de si. E também o quentinho, o aconchego, a paz, tudo dentro desse momento presente em que nomeamos de “a nossa existência”.

 


 

 

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