Divã invisível ( Parte 1) – Crônicas de uma psicoterapeuta.
ABERTURA
“Ouvir é dar voz”. Essa frase carrega em si todo sentido do meu trabalho. Sentido esse que é tão simples, mas tão simples que chega a ser quase um adolescente rebelde numa busca implacável pela sua identidade. Quase como uma faísca de resistência, um ponto invertido de simplicidade pura flutuando numa maré de complicações. As vezes o simples é tão estranho, tão impensável, tão longe do familiar, que se torna árduo. Acho que o simples e o complicado poderiam vir a ser sinônimos em algum momento.
Prazer, eu sou a Layla. Melhor dizendo, vou sendo a Layla. Vou sendo mulher, vou tendo 30 anos, vou sendo psicóloga, supervisora e professora. Vou morando com minhas plantas e minhas duas gatas: a Moira e a Morgana, que as vezes me fazem companhia nesse momento de escrita. Elas me ensinam muito sobre simplicidade e sobre ser-psicoterapeuta. Elas me dão amostras diárias sobre o que é ser profundamente simples: estar ali, lambendo os pêlos pacientemente deitadas em algum canto fresquinho da casa; ou quando ignoram os meus chamados importunos e permanecem no mesmo lugar, escolhendo não fazer movimento algum.
A simplicidade tem a ver com presença. A paciência é um modo que habita apenas o presente. Se você se afastar por muito tempo deste momento, se delongar muito tempo no passado, ou se apressar por muito tempo no futuro, vai acabar encontrando complicações. Vai acabar perdendo tempo, ou melhor, se perdendo no tempo.
Perder- tempo. Incontáveis momentos de minha vida me perdi me perdendo no tempo, em tentar ser uma boa psicoterapeuta, esperando saber exatamente o que falar, de ter medo que meus clientes não fossem satisfeitos com meu trabalho, pensando se isso ou aquilo que falei foi um completo absurdo a ponto de bagunçar ainda mais a vida de uma pessoa que me procurou num momento de vulnerabilidade. Me perco no tempo tentando ser uma boa psicóloga, uma boa professora, uma boa supervisora, uma boa colega, uma boa filha, uma boa irmã, uma boa pessoa. Talvez eu esteja perdendo tempo nesse exato momento de tempo, que inclusive, já perdi, tentando narrar pra vocês uma experiência que seja minimamente intrigante; mas é assim que minha cabeça as vezes funciona por dentro, não para de se perder no tempo. Como essa coisa de estar no presente pode ser tão difícil, tão trabalhoso. A gente se distrai por um segundo e pronto, a cabeça já tá sei la onde, sei la quando.
Então, para contar essa história, fiz um combinado comigo mesma que agora estendo pra vocês: vou contar da forma que ela me vem. Vou tentar não me preocupar em ser boa, ou impactante, ou minimamente suficiente. Vou contar e vocês, se quiserem, vão ouvir – simplesmente.
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