Divã invisível (Parte III) - Crônicas de uma psicoterapeuta
Capítulo II - Quem escuta?
Gosto de trabalhar um poema de Rubens Alves com meus alunos da graduação chamado “ Escutatória”, o poeta, em um trecho, diz assim :
“ Não é bastante ter ouvidos para ouvir o
que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma.”
Silêncio dentro da alma. A melhor definição de suspensão fenomenológica que já encontrei nas literaturas.
Para mim, ser-psicóloga é se aventurar nas narrativas como uma guia de trilhas na caverna.
O primeiro ponto que vc aprende nessa aventura é que : Na luz têm coisas boas e ruins. Na sombra têm coisas boas e ruins. Entenda que, o que eu quero dizer com “ boas” e “ruins” é algo nomeado apenas por quem vive a experiência. Em outras palavras, digo que existem mistérios, algum deles estão iluminados enquanto outros, ainda não estão.
A única diferença entre a luz e a sombra é que ,na luz, as coisas são visíveis.
O segundo ponto é que sem luz alguma vai ser difícil trilhar algum caminho. Vc se perde, tropeça e se machuca. Aliás ,dentro de uma caverna sem luz alguma, vc nem pode se mover ,porque o risco de acidente é altíssimo.
Enquanto psicóloga eu sou a guia com a minha lanterna e o cliente é o curioso explorador com sua lanterna. E entramos juntos. Lado a lado, conhecendo a caverna conforme apontamos a laterna para o chão que, passo a passo, vai formando o caminho.
Perceba que não existe um caminho pré delimitado, uma única trilha. Na caverna, vc vai se mover passo por passo. Cautelosamente. Não dá pra correr, nem andar em linha reta.
Algumas cavernas se abrem num salão. Outras vc entra de forma estreita e apertada. Algumas cavernas possuem rios internos, cachoeiras,abismos,abismos pra cima. Outras são secas e áridas, estalaquitites e estalaquimites.
Se você já entrou em alguma caverna na vida, com certeza já viu as gotas de água com calcário que, quando secam, se tornam algo parecidos com pérolas.
Sim, em algum ponto da caverna você pode ver um salão reluzente de pérolas.
Nas paredes você vai conseguir observar diferentes tons de cores que são as marcas da passagem do tempo: onde a parede é clara significa que naquele período de tempo aquela caverna esteve em continente. Onde as marcas são escuras, certamente naquele momento do tempo aquela mesma caverna foi submersa no fundo do oceano.
Assim como as cavernas nos também registramos marcas do tempo e da ancestralidade em nossas paredes. É só apontar a lanterna lá que você vai ver.
É claro que, eu enquanto psicóloga guia de trilhas nas cavernas, não conheço todas as cavernas do mundo. Nem conheço aquelas que já entrei anteriormente porque as cavernas também mudam de acordo com as estações do ano e períodos. São sazonais. Então, assim como um rio, só entramos na mesma caverna uma vez. Mas, como tenho prática em fazer esse tipo de trilha, tenho um pouco mais de experiência e sabedoria na hora de guiar meu cliente aventureiro. Sei dizer onde ele deve ter cuidado, sei orientar seus passos inexperientes. Mas isso não impede que ele tropece ou bata a cabeça em algum obstáculo, minha experiência não impede também que eu me machuque ou pise em falso. Por isso, mesmo eu com um pouco mais de experiência e intimidade com aquele tipo de ambiente , entro de forma igualmente humilde e com olhos de desbravadores.
Conforme percebo que aquele trecho do percurso está " tranquilo", enquanto guia, consigo me adiantar alguns passos e ficar a frente do meu cliente para ver se não vai haver alguma surpresa inesperada.
Se houver alguma pedra ou algo que desperte insegurança na pessoa que guio, posso lhe oferecer ajuda e estender a mão.
Precisamos respeitar as pausas dentro desse percurso. Precisamos respeitar o tempo do passo de quem se aventura la dentro que, lentamente, vai harmonizando com o ritmo da própria caverna, assim como a homeostase da temperatura corporal que fica cada vez mais amena conforme entramos fundo nos túneis, lá a temperatura é estável em agradáveis 21ºC.
É de costume que, quando chegamos no ponto mais profundo possível de se chegar sem equipamentos, convidamos todos a apagarem as lanternas e desfrutar do silêncio mais profundo que você pode sentir. Lá dentro, onde a temperatura é constante, e a escuridão é completamente plena, você pode alcançar o mais próximo do Silêncio que pode existir. O silêncio é o som do íntimo da terra. Longe da superfície.
E, nesse momento, me sinto inteiramente grata por poder ser-caverna.
Na primeira vez que fiz essa trilha, com a querida guia Fran no parque Estadual Intervales, descobri a experiencia do Silêncio, ou melhor, ser-silêncio.
Até então nunca havia refletido sobre o silêncio, já dava por entendido que era a ausência de sons. “ Shh, silêncio turma”, ou seja, parem de falar alto enquanto estou explicando o conteúdo. Ausência de sons, será que isso existe? Será que é possível, nós, mesmo nas profundezas de uma caverna, encontrar um momento em que todos os sons do mundo se silenciem?
Compreendi o silêncio como esse lugar escuro, de temperatura constante, onde você se sente dentro da própria Terra. Onde você e a imensidão se fundem. Esse ponto em que a serenidade e o medo do desconhecido são meio que a mesma coisa. Esse sentimento de se enxergar tão mínimo diante daquelas marcas do passar dos milhões de anos nas paredes da caverna. Diante daquelas formações rochosas monumentais que, para formar apenas 1cm a mais, demoram cerca de dez mil anos de tempo.
Espécies nasceram e se findaram. Períodos de gelo e fogo se intercalaram. Na superfície: Furacões, vulcões, apocalipses, tsunamis, capitalismos e arranha-céus. Mas lá dentro daquela caverna, o que sempre existiu e o que sempre existirá é apenas o pinga pinga paciente das águas infiltradas na escuridão.
Neste mesmo momento em que escrevo até o momento de tempo em que essas palavras chegarem nos seus respectivos olhos leitores, a caverna estará lá, pingando gota a gota.
Tenho aprendido a levar este mesmo silêncio de dentro da caverna comigo pras sessões ou seja lá pra onde eu for. Esse é o meu sentido daquilo que Rubem Alves trouxe tão singelamente em seu poema...esse silêncio dentro da alma.
Não é com os ouvidos que nós, psicoterapeutas, ouvimos nossos clientes. Nós ouvimos, verdadeiramente, nesse lugar, de se lançar, sem rodeios, ao abismo do infinito escuro e sem contornos, de habitar a própria imensidão, por um instante no tempo.
.jpeg)



Comentários
Postar um comentário